Geralmente
o regime de renovação de água
nos açudes não mantém uma
regularidade ao longo do ano . Há maior
renovação na época das chuvas
e menor na estiagem. Assim, para determinar a
biomassa segura a ser sustentada no açude,
possibilitando o planejamento inicial da produção,
o empreendedor deve considerar o período
de menor renovação de água.
Implantando o projeto, com base na condição
de qualidade de água após atingida
a biomassa segura inicialmente proposta , o empreendedor
poderá avaliar se há possibilidade
de aumentar, ou mesmo se deve diminuir, a intensidade
de produção no açude.
Exemplo de aplicação na Tabela 1-
um açude de 4 hectares com renovação
próxima de zero, pode sustentar uma biomassa
instantânea de 8 toneladas de peixes ( 4
ha x 2t/ha ) e uma carga diária de ração
entre 80 e 120 Kg ( 4 ha x 20 Kg/ha/dia a 4 ha
x 30 Kg/ha/dia ).Aprodução anual
esperada deve ficar entre 20 e 28 toneladas (
4ha x 5t/ha/ano a 4ha x 7t/ha/ano );
Outro exemplo - um açude
de 15 hectares com renovação de
5 a 10% ao dia pode sustentar uma biomassa instantânea
de 45 toneladas ( 15 ha x 3 t/ha ) e uma carga
diária de ração entre 600
e 750 Kg ( 15ha x 40 Kg/ha/dia a 15ha x 50 Kg/ha/dia
). A produção anual esperada deve
ficar entre 120 e 150 toneladas ( 15ha x 8t/ha/ano
a 15ha x 10t/ha/ano).
O produtor deve assegurar um nível de
oxigênio de pelo menos 3 a 4mg/l pela
manhã no interior dos tanques-rede, de
forma a manter um adequado desempenho ( crescimento
e conversão alimentar ), podem deixar
os peixes mais susceptíveis ao manuseio
e doenças, aumentando a mortalidade no
cultivo . Para evitar problemas com o oxigênio
dissolvido é fundamental não exceder
os limites seguros de alimentação.
Tais limites são excedidos quando o produtor
instala mais tanques-rede do que o açude
é capaz de suportar, ultrapassando a
biomassa segura . O produtor inexperiente e
que não tem controle sobre os parâmetros
de qualidade de água, sempre tende a
acreditar ser possível instalar uma nova
linha de tanques- rede, pois é enganado
pelo grande espaço ainda disponível
no açude. Este produtor acaba aprendendo,
da maneira mais dura, que há um limite
de sustentação que deve ser respeitado.
Espécies que podem ser cultivadas
em tanques-rede – Diversas espécies
de peixes podem ser produzidas em tanques-rede.A
tilápia, o pintado, o catfish americano
, a carpa comum, os peixes redondos , o pirarucu,
a jatuarana e a matrinxã são exemplos
de espécies com bons resultados obtidos
no cultivo em tanques-rede. As condições
de mercado ( preferências, demanda e preço
), a disponibilidade de alevinos, o custo de
produção, entre outras particularidades,
devem ser avaliadas pelo produtor antes de optar
por uma outra espécie. A tilápia
– dentre todas as espécies , a
tilápia é a melhor para quem está
debutando na atividade. O produtor não
tem dificuldade em obter alevinos, o peixe é
resistente ao manuseio mesmo quando envolve
pessoal pouco experiente. E o mercado da tilápia
está em plena ascensão . Por esses
e outros motivos a tilápia é hoje
a espécie mais cultivada em tanques-rede
no país.O uso de tanques-rede é
a opção mais acertada quando se
pensa em produzir tilápias em açudes
particulares. Geralmente estes açudes
são profundos, têm obstáculos
ao arrasto das redes ( plantas aquáticas,
troncos e galhos de árvores, etc ) e
não podem ser drenados com freqüência
, seja por falta de estrutura para drenagem
completa, seja pelo uso de água em outras
atividades.Sob tais condições,
a despesca de tilápias soltas no açude
é humanamente impossível. No entanto,
quando as tilápias são cultivadas
em tanques-rede, a colheita é simples
e eficiente.Apesar da relativa facilidade de
produção de tilápias nos
tanques-rede, em algumas situações
a grande oferta local pode tornar o valor de
venda pouco atrativo diante do custo de produção
entre 1,90 e 2,20/Kg hoje obtido com a tilápia
em tanques-rede . Este custos podem variar em
função da região do país,
escala de produção e peso médio
final do peixe produzido. Custos mais elevados
podem ocorrer se os cultivos forem prejudicados
pelo mau planejamento, doenças, roubos
ou escapes de peixes.Os preços de venda
da tilápia cultivada em tanques-rede
variam entre R$ 2,50 e R$ 5,00/Kg, em função
da região, tamanho do peixe, estratégia
de comercialização e mercado alvo.
O pintado ( surubim )- cultivo
deste peixe em tanques-rede vem empolgando alguns
produtores em São Paulo e Minas Gerais.
Devido ao seu alto valor de marcado, o pintado
é uma interessante opção
quando é preciso maximizar os lucros
sob limitada disponibilidade de área,
o que geralmente, ocorre em pequenos açudes
particulares. O pintado desfruta de grande conceito
e valor no mercado. No entanto, o produtor que
optar por investir no cultivo do pintado, deve
estar preparado para mudanças na rotina
do cultivo. Uma delas é a realização
de alimentações durante o período
noturno, principalmente nos tanques-rede com
juvenis, que não se alimentam bem durante
o dia.Pintados de maior porte ( acima de 20-25cm
) podem ser habituados à alimentação
em horários de baixa luminosidade ( primeiras
horas da manhã e ao final do dia ). No
entanto, ainda se alimentam melhor durante a
noite. Mudar a rotina da produção
para realizar as alimentações
noturnas tem suas vantagens em nosso país.A
principal delas é a inibição
de roubos e vandalismos. Funcionários
trabalhando são mais eficientes nisso
do que um vigia dormindo a noite inteira. Além
do mais, concentrando o manejo da alimentação
durante a noite, o período diurno fica
reservado para outras atividades de manejo (
classificação, transferências,
despescas, recolhimento de peixes mortos,ajustes
nos anéis de alimentação,
etc ), sem que haja interferências com
a rotina de alimentação . O custo
de produção do pintado em tanques-rede
varia em função da escala de produção,
qualidade do alevino ( eficiência do treinamento
alimentar e genética ) e peso final do
peixe produzido. Este custo hoje gira entre
R$ 4,30 a 5,80/kg, praticamente o dobro do custo
de produção da tilápia
.Isso se deve principalmente ao maior custo
dos alevinos e das rações no cultivo
do pintado. Assim, o produtor que optar pelo
pintado deve estar preparado para investir mais
no custeio da produção .
Apesar desse maior custo, os produtores de pintado
têm recebido R$ 8,00 a 10,00 por quilo
de peixe inteiro com a venda a intermediários
( transportadores de peixes vivos, atacadistas
e supermercados ).
Preços ainda melhores, entre R$ 10,00
e 12,00/ kg são obtidos com a venda direta
aos pesque pagues e ao consumidor final.
Esta maior margem de lucro possível com
o pintado resulta em retorno superior ao que
pode ser obtido com a tilápia, tornando
atrativa até mesmo a implantação
de empreendimentos de pequeno porte.
Uma avaliação dos canais
de mercado
O pescado oriundo da piscicultura pode ser comercializado
de diversas formas:
a) peixe vivo para pesca esportiva,
para o mercado de peixe vivo ou mesmo para entrega
aos frigoríficos e algumas redes de supermercado;
b) peixe abatido para venda direta
ao
consumidor final na fazenda ou em feiras livres
; ou para venda a restaurantes ou a atacadistas
( supermercados, frigoríficos, entre
outros ) ; c) produtos processados
na propriedade, para vendas diretas ao consumidor
final, a restaurantes ou a atacadistas.Quando
a escala de produção é
relativamente pequena, os peixes acabam sendo
vendidos localmente a preços compensadores,
seja para consumidores no município ou
pegues-pagues locais.Em particular, a venda
de peixes vivos diretamente ao consumidor, apesar
de exigir grande dedicação do
produtor, possibilita alcançar alta margem
de lucro e um mercado sem concorrente para os
produtos da aqüicultura, Dos relatos que
tenho ouvido de produtores em diversas regiões
do país , todos que partiram para esta
forma de comercialização, principalmente
no início dos seus empreendimentos, ficaram
impressionados com o sucesso dessa modalidade
de venda . Com uma produção maior,
muitas vezes é necessário expandir
o horizonte de comercialização.Isso
pode exigir investimentos em infraestrutura
de transporte de peixe vivo ou mesmo a instalação
de uma pequena unidade de beneficiamento, geralmente
com alvará e licença para funcionamento
no município expedido pela vigilância
sanitária e prefeitura loca. Isso possibilita
ampliar o leque de produtos ofertados ( peixe
eviscerado e filés frescos e congelados
), contribuindo para o aumento nas vendas diretas.Quando
estes investimentos não são impossíveis,
o produtor passa a depender de transportadores
de peixes vivos ou de outros intermediários/atacadistas
para escoar parte ou toda a sua produção.
Análise preliminar da viabilidade
econômica - Antes de decidir
pela implantação, é fundamental
realizar uma análise da viabilidade econômica
do empreendimento, de forma a prever o potencial
de retorno ao capital investido sob diferentes
cenários, principalmente variando as
condições de preço de venda,
volume de produção anual e preços
dos principais insumos de produção
( geralmente a ração e as alevinos
) . Para realizar esta análise é
preciso ter uma idéia do tamanho do investimento
( em tanques-rede, equipamentos, infra-estrutura
de suporte e demais desembolsos que serão
necessários para a implantação
do empreendimento ). Também é
preciso prever o montante das despesas operacionais
( ração mão de obra, alevinos,
insumos diversos,manutenção das
instalações e equipamentos ) e
ter uma previsão das receitas ( descontadas
as despesas e impostos sobre as vendas ). As
receitas são geralmente estimadas com
base nos preços de venda que foram aferidos
em diversos canais de mercado, como pesque-pague,
o mercado local ( peixe vivo ou abatido ) e
os atacadistas.
Capacidade para formar a equipe de
produção- A maior dificuldade
para a operação de uma piscicultura
é a relativa dificuldade de encontrar
funcionários familiarizados com manejo
envolvido na produção de peixes.
Assim, o proprietário deve se certificar
de que contará com suporte técnico
inicial,tanto para planejar a produção
e as atividades rotineiras, como para capacitar
os funcionários e gerentes do empreendimento.
O sucesso da produção depende,
em grande parte, do olhar atento, da habilidade
e do cuidado dos funcionários, além
da capacidade de organização de
quem gerencia o dia a dia do cultivo. Muitos
proprietários interessados no cultivo
de peixes em tanques-rede acabam optando por
fazer experimentações, colocando
muitas vezes gente inexperiente e sem suporte
para conduzir as atividades de rotina, que geralmente
acabam sendo executadas nas brechas entre as
atividades principais que estes funcionários
desempenham na fazenda.
Onde posicionar os tanques-rede ?
Decidir onde posicionar os tanques-rede em um
açude não é uma tarefa
muito simples. Os produtores quase sempre colocam
os tanques-rede nos locais mais fundos, em geral
próximo à barragem. Diversos motivos
induzem a isso : o principal, e há lógica
nisso, é acreditar que quanto mais distantes
os tanques-rede ficarem dos resíduos
orgânicos do fundo, menor o risco de problemas
com a qualidade da água no interior dos
tanques-rede e menor o risco de doenças
e infestações por parasitos.O
segundo motivo, pelo fato de poder contar com
um acesso mais fácil às estruturas,
visto que o topo da barragem geralmente oferece
boas condições de tráfego
de veículos, facilitando a chegado dos
insumos e a saída dos peixes. O terceiro
motivo é o fato de que, posicionado os
tanques-rede no local mais fundo, dificilmente
haverá necessidade de desloca-los quando
ocorre um abaixamento no nível do reservatório,
o que pode ocorre em açudes usados para
irrigação durante os meses de
estiagem.
Mas a decisão de onde posicionar os tanques-rede
nem sempre pode ser tomada com base em intuição,
impulso ou comodidade. O produtor deve estar
ciente de que há um grande risco de se
posicionar os tanques-rede nos locais mais profundos
do açude, devido aos riscos de mistura
ou desestratificação
da coluna d’ água . Portanto, para
definir onde os tanques-rede devem ser posicionados,
diversos aspectos merecem ser considerados.
O primeiro deles é a necessidade de assegurar
um espaço mínimo de pelo menos
1,0m entre o fundo dos tanques-rede e o fundo
do açude.Assim,para tanques-rede com
1,5m de altura útil, estamos falando
em locais com 2,5m de profundidade. A maneira
mais objetiva de selecionar o local ( satisfeitas
às exigências quanto à facilidade
de acesso, investimento mínimo e segurança
) é avaliar o perfil de oxigênio
em profundidade nas áreas pré-selecionadas.
Debaixo d’ água muita coisa pode
estar escondida.áreas com grande quantidade
de vegetação e/ou depósito
de material orgânico ( turfas , por exemplo
) podem ter ficado submersas com a formação
do açude. Níveis baixos de oxigênio
e concentrações elevadas de gás
carbônico são característicos
nestes locais, podendo permanecer assim durante
muito tempo, muitas vezes anos, após
o enchimento do açude. Assim, a verificação
dos níveis de oxigênio da superfície
ao fundo pode confirmar se o local é
adequado ou não . Locais adequados são
aqueles em que o oxigênio se mantém
acima de 3mg/l no ponto equivalente a 70% da
profundidade. Exemplificando, em um local com
profundidade máxima de 5m, o oxigênio
dissolvido a cerca de 3,5m de profundidade (
70% de 5,0m ) deve ser, pelo menos, 3mg/l.Isso
diminui muito o risco de problemas de morte
de peixes se houver a mistura da água
do açude.
O risco dos tanques-rede nos locais
mais profundos
Os corpos d`água dos açudes apresentam
estratificação física,
causada por diferenças na densidade da
água em função da temperatura
nas diferentes camadas. Na superfície,
em função da radiação
solar, a a´gua permanece mais aquecida
e com maior intensidade luminosa.A intensidade
de luz é reduzida com o aumento na profundidade
e, assim, a água do fundo não
é aquecida com a mesma intensidade que
a água da superfície . Quanto
mais fria for a água ( até 4º
C ),maior será a sua densidade .Desta
forma, a água mais fria se posiciona
nos extratos mais profundos.Com isso ocorre
a estratificação física
do corpo d’ água de um açude.
Na camada mais superficial do açude,
com radiação solar mais intensa,
o fitoplâncton se desenvolve melhor .Através
da fotossíntese, o fitoplâncton
produz mais de 80% oxigênio utilizado
na respiração dos demais organismos
aquáticos, inclusive os peixes nos tanques
-rede. Com o aumento na profundidade, a intensidade
de luz diminui, desacelerando a fotossíntese
e reduzindo a produção de oxigênio.Isso
resulta em uma redução progressiva
no oxigênio dissolvido, desde a camada
mais superficial até a mais profunda
do açude. A uma profundidade próxima
de 2,4 vezes a transparência da água
( medida com o disco de Sechi ) a taxa fotossintética
se iguala à taxa respiratória,
ou seja, todo o oxigênio produzido é
consumido.Assim, em um açude com água
de transparência ao redor de 1,00m, abaixo
de 2,40m não há excedente da produção
de oxigênio e, a oxigenação
deste extrato mais profundo depende em grande
parte da mistura de sua água com água
do estrato superior, mais oxigenado.
Adicionalmente, sobre os sedimentos dos açudes
ocorre a deposição de material
orgânico ( plâncton sedimentado
; fezes dos peixes; folhas, estercos animais
e outros materiais transportados pelo vento
ou pela enxurrada; restos de plantas aquáticas;
eventuais sobras de alimento; fertilizantes
orgânicos aplicados no açude; entre
outros ). Este material depositado nos sedimentos
é rapidamente reciclado nos locais mais
rasos do açude ( Zona 1 ) . Neste estrato
há grande disponibilidade de oxigênio,pH
adequado e temperaturas elevadas para acelerar
o processo de degradação e decomposição
da matéria orgânica por bactérias
e outros organismos . Os nutrientes liberados
neste processo são rapidamente assimilados
pelo fitoplâncton.Entre eles, o gás
carbônico ( CO2 ) , o nitrogênio
na forma amoniacal ( NH 4 + ) ou de nitrato
( NO3? ) e o fósforo na forma de ortofosfatos
( HPO4 -2) e ( H2PO-4 ). No entanto, nos locais
mais profundos ( Zonas 2 e 3 ), em virtude da
menor disponibilidade de oxigênio, maior
acidez e baixa temperatura da água, este
material orgânico é decomposto
de forma muita lenta. Isso provoca um acúmulo
de material orgânico nos sedimentos, resultando
em depleção total do oxigênio
e aumento na concentração de gás
carbônico nas águas mais profundas
. Sem oxigênio, o processo de decomposição
da matéria orgânica passa a ser
anaeróbico ( “ fermentação
“ ), resultando na produção
e acúmulo de substâncias tóxicas
como a amônia ( NH 3 ), o nitrito ( NO-2
), o gás súfidrico ( H 2 S ) e
o metano ( CH4). Assim, além de ter oxigênio
zerado ( ou mesmo “ negativo “ ,
ou seja, demanda por oxigênio ) e alta
concentração de gás carbônico,
a água das zonas mais profundas ( Zona
3 ) concentra uma significativa quantidade de
substancias tóxicas aos peixes .
Enquanto esta água permanece no fundo,
sem perturbação, não há
problemas. No entanto, quando este estrato do
fundo, por alguma razão, se mistura com
as outras camadas ( em um fenômeno chamado
“ desestratificação “
), o risco de morte dos peixes nos tanques-rede
é muito grande. Diferente dos peixes
soltos no açude, os peixes confinados
nos tanques-rede não conseguem se deslocar
para um local de melhor qualidade de água.
Tampouco, devido à alta densidade no
interior dos tanques-rede, muitos não
conseguem acessar a superfície, onde
está o filme de água mais oxigenado,
em contato com a atmosfera . Inevitavelmente,
grande parte dos peixes morre. A boca e os opérculos
abertos são sinais claros de que houve
asfixia, causada pela súbita redução
no oxigênio e alta elevação
no gás carbônico após a
mistura dos estratos. Quando a morte dos peixes
não ocorre imediatamente ( ou seja ,
o oxigênio e o gás carbônico
não atingiram níveis suficientes
para matar ), nos dias seguintes pode ocorrer
mortalidade em virtude da intoxicação
dos peixes por outras substancias tóxicas
que aumentaram de concentração
na água superficial.Por tudo isso, quando
os tanques-rede são posicionados nas
áreas de maior profundidade, o risco
de mortalidade dos peixes devido à mistura
das camadas é maior.
Zona 1- bem iluminada; presença
do fitoplâncton ; temperatura mais elevada;
oxigênio adequado; pouco gás carbônico;
rápida decomposição de
material orgânico;
Zona 2- menor intensidade de
luz; menos fitoplâncton ; temperatura,
oxigênio e gás carbônico
em níveis intermediários ;
Zona 3- pouca ou nenhuma
luz; ausência de atividade fotossintética
; baixos níveis de oxigênio ( geralmente
zero ou negativo – potencial redox negativo
); acúmulo de matéria orgânica
nos sedimentos; decomposição anaeróbica
do material orgânico; acumulo de composto
tóxicos, com o nitrito ( NO-2 ) o gás
sulfídrico ( H2S ) e o metano ( CH4).
As principais forças que causam a desestratificação
da água dos açudes são
os ventos fortes, as enxurradas e a quedas na
temperatura do ar, que afeta a temperatura e
a densidade da água superficial.
Nos meses de verão, momento em que o
açude se encontra fortemente estratificado,
a ocorrência de temporais, com fortes
ventos e/ou grande volume de enxurrada carreado
para dentro dos açudes, as camadas de
água podem ser rapidamente misturadas,
desestratificando o açude.Por anos seguidos
tenho conhecido produtores que experimentam
mortalidade súbita de tilápias
em tanques-rede, principalmente nos meses de
verão.Em quase todos os casos, ocorreram
temporais ao entardecer ou na noite que antecedeu
a mortalidade.Onde isso não ocorreu,
a mais provável causa da morte dos peixes
por asfixia pode ter sido a morte súbita
do fitoplâncton em açudes onde
a água estava excessivamente verde e
com transparência abaixo de 30 cm ( mais
informações sobre a morte súbita
do plâncton poderão ser encontradas
em livros sobre qualidade de água e em
matérias já publicadas nesta revista).Nos
meses de inverno, a temperatura da água
superficial acompanha a queda na temperatura
do ar. Esse resfriamento da água superficial
acompanha a queda na temperatura do ar.Esse
resfriamento da água superficial provoca
uma queda na temperatura das camadas subseqüentes
ate que, aos poucos, o gradiente de temperatura
entre as diferentes camadas é minimizado.
Com isso, a diferença na densidade entre
os estratos se reduz e a mistura da água
do açude acaba ocorrendo,porém
de maneira menos súbita. Esse fenômeno
é chamado de inversão térmica
. Em pequenos açudes a inversão
térmica pode ocasionar a morte dos peixes
nos tanques-rede, porém com menor intensidade
do que se poderia esperar em grandes reservatórios.
Quando ocorre a morte dos peixes pela mistura
das camadas ( uma mortalidade muito misteriosa
aos olhos de um produtor leigo ), é comum
atribuir o problema à ração
ou mesmo a um impossível envenenamento
intencional da água do açude;
No entanto, uma ração embolorada
ou com alguma deficiência nutricional
não mata todos os peixes da noite para
o dia, a não ser que realmente alguém
tenha colocado um veneno na ração
E, por outro lado, se houve algum envenenamento
da água, os peixes soltos no açude
também deveriam ter morrido. E isso geralmente
não ocorre, pois os peixes soltos podem
procurar locais com oxigênio mais adequado
ou , até mesmo, se “ esparramar
“ pela superfície da água,
buscando o filme superficial mais oxigenado.
O produtor pode prevenir a ocorrência
de forte estratificação através
dos seguintes procedimentos de rotina:
-Drenagem periódica da água
do fundo, com uso de “monges
“, cachimbos e outra estruturas que removam
continuamente o excesso de água pelo
fundo do açude.
Se estas estruturas não existem, ainda
é possível fazer a implantação
de sifões para a descarga da água
do fundo ;
- Captação de água
para irrigação no estrato mais
profundo do açude, A água
em profundidade geralmente contém menos
material particulado ( água com ausência
de plâncton ), causando menos problemas
com o entupimento de filtros e dos bicos dos
aspersores .Além disso,, remover a água
do fundo ajuda a reduzir a severidade de morte
dos peixes nos tanques-rede em um eventual problema
com a mistura da água do açude.Quando
a água é removida dos estratos
intermediários, o gradiente de qualidade
de água entre a superfície e o
fundo fica ainda mais acentuado, podendo amplificar
a mortalidade de peixes com a ocorrência
da desestratificação.
- Circulação diária
da água nas áreas mais fundas
do açude, com uso de aeradores
de pá ou com propulsores de ar eficientes
.
Esta circulação deve ser efetuada
entre as 12:00 e 15:00horas, horários
mais quentes do dia e de pico de fotossíntese.
O objetivo da circulação é
empurrar a água mais rica em oxigênio
da superfície para o estrato mais fundo
do açude, melhorando as condições
de oxigênio no fundo, reduzindo assim
o gradiente de qualidade da água entre
a superfície e o fundo do açude.O
produtor que dispuser de oxímetro notará
que após a circulação de
água haverá um aumento na concentração
de oxigênio em profundidade.
O uso de aeração
Em açudes pequenos, se houver eventuais
problemas com a qualidade da água, não
é difícil acudir providenciando
uma aeração localizada próxima
das linhas de tanques-rede ou mesmo no inteiro
dos tanques-rede.No entanto, em açudes
de grande porte, o esforço demandado
por uma aeração de emergência
pode ser muito grande, muitas vezes impossível
de prover.
Em açudes com tanques –rede, a
aeração deve ser usada apenas
como ferramenta em situações de
emergência e não com a finalidade
de atingir um nível maior de produção.Realizar
uma aeração localizada é
mais eficiente do que tentar elevar o oxigênio
em toda a extensão do açude .
De um modo geral, em viveiros de piscicultura,
a potência de aeração aplicada
varia entre 5 a 10 hp/há, dependendo
da taxa de alimentação, da biomassa
de peixes estocada e de diversos outros fatores
. No caso de um aeração localizada
para tanques-rede nos açudes, esta potência
pode ser reduzida em pelo menos 50% ( 2 a 5
hp/ha ); visto que a biomassa instantânea
e taxa de alimentação por área
geralmente menor do que praticado em viveiros.
A aeração pode ser feita
das seguintes maneiras :
- Como o uso de aeradores de pás posicionados
próximos as linhas de tanques-rede, provendo
uma aeração localizada na área
dos tanques-rede. Aeradores de pás são
os mais eficientes . No entanto, deve se tomar
cuidado para não posicionar os aeradores
muito próximos aos tanques-rede, para
não causar desconforto aos peixes com
correntes de água muito rápidas.
Aeradores de pá também podem ser
usados para circular e misturar a água
nas áreas mais fundas dos açudes,
evitando que ocorra forte estratificação
dos açudes;
- Com difusores de ar de adequado tamanho e
alta vazão posicionados no interior dos
tanques-rede. O sistema de aeração
por ar difuso demanda a instalação
de sopradores de ar ( compressores radial ),
ramais principais de grande calibre ( 75, 100
e até mesmo 150mm, dependendo da distancia
das tubulações )e difusores de
grande vazão, de forma a evitar estrangulamentos
no sistema e sobrecargas no motor dos sopradores
. Grande parte dos sistemas de ar difuso que
tenho visto nas piscicultura tem sido implantada
pelos próprios produtores e não
segue os requisitos técnicos demandados
por este sistema de aeração. Assim,
é comum ver sopradores de alta potência
estrangulados por tubos e mangueiras finas e
mesmo por um sem números de ineficientes
pedras porosas de pequeno calibre e vazão.Os
resultados: a sobrecarga do sistema, queima
freqüente dos motores dos sopradores e
uma ineficiente aeração.
A aeração por ar difuso consome
mais energia por unidade de oxigênio incorporada,
comparado a outros sistemas.
No entanto, quando é necessário
prover aeração apenas em caráter
de emergência, pode ser uma boa opção
em tanques-rede nestes açudes de pequeno
porte.
- Um sistema de aeração de emergência,
também pode ser montado com bombas de
água que succionam a água da superfície
do açude e, através de uma rede
de tubos, conduz a água ao longo de todas
as linhas de tanques-rede, injetando a mesma
com pressão no interior ou bem nas laterais
dos tanques.Isso força a incorporação
de oxigênio durante a queda ( efeito cascata
) e promove uma melhor circulação
de água no interior dos tanques-rede.
Rações de alta qualidade
são imprescindíveis
Os peixes cultivados em tanques-rede dependem
exclusivamente da ração para suprir,
de forma equilibrada, todos os nutrientes necessários
para adequada saúde e desempenho produtivo.
Produtores com pouca experiência muitas
vezes minimizam a importância do uso de
rações de alta qualidade e, seduzidos
por preços atrativos e por falsas garantia
de bom desempenho, acabam comprando rações
incapazes de atender as necessidades dos peixes
cultivados em tanques-rede.Deficiências
nutricionais devido ao uso de rações
inadequadas, além de prejudicar o crescimento
e a conversão alimentar, podem resultar
em maior incidência de doenças
e mortalidade no cultivo, após o manuseio
e durante e depois do transporte . Com isso
o custo de produção se eleva,
podendo inviabilizar o cultivo.
Considerações finais
A criação de peixe em tanques-rede
é uma atividade intensiva que demanda
um adequado planejamento, conhecimento técnico,
equipe de produção bem treinada
e empenho na comercialização,
de forma a obter a melhor remuneração
possível e estruturar canais de venda
seguros.
O uso dos açudes particulares disponíveis
oferece uma oportunidade única de implantar
um negocio promissor com uma imobilização
mínima de capital.Essa oportunidade pode
ser estendida a empreendedores não proprietários
que, através de contratos de arrendamento
ou através de parcerias de produção,
poderão se tornar donos do seu próprio
negócio . Alem disso,ao contrário
da grande imobilização de investimento
feito na implantação de pisciculturas
tradicionais em tanques escavados, as unidades
de cultivo e estruturas de apoio usadas no cultivo
em tanques-rede podem ser transferidas de um
local a outro diante de uma eventual necessidade
e, até mesmo, vendidas com maior agilidade
se houver necessidade de interrupção
do empreendimento.
Observando o universo de propriedades rurais
no Brasil, é possível identificar
um grande número de açudes com
potencial para piscicultura convencional em
tanques-rede de forma sustentável . A
exemplo do que tem sido praticado há
décadas na China, o aproveitamento dos
açudes disponíveis para fins de
piscicultura, seja de forma tradicional ou com
o uso de tanques-rede, por si só, possibilitará
um significativo aumento na produção
e oferta de pescado em nosso país.