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15/08/2018
Imagem retirada de https://www.sabado.pt/dinheiro/detalhe/20180810_1708_a-racao-gourmet-feita-de-carne-e-peixe-frescos Imagem retirada de https://www.sabado.pt/dinheiro/detalhe/20180810_1708_a-racao-gourmet-feita-de-carne-e-peixe-frescos

Quando, em 2010, Raul Abraão foi obrigado a fechar a empresa de distribuição de rações que dirigia, o futuro parecia incerto. Importador exclusivo de uma marca canadiana em Portugal, foi apanhado de surpresa quando esta decidiu rescindir o contrato ao fim de 10 anos de ligação. "Foi um problema grave", confessa o empresário de Santarém à SÁBADO. Ficou com um saldo negativo na banca avultado, mas ainda assim decidiu arriscar – e lançou uma nova marca de ração para cães e gatos.

Chamou-lhe Naturea. E produz alimentos para animais em que o ingrediente principal é a proteína animal e não os cereais, como acontece com as outras rações no mercado. "Os cães e os gatos são carnívoros e o seu sistema digestivo não está preparado para digerir cereais", explica o director-executivo da empresa. Mais: a carne e o peixe usado na confecção das rações é fresco e aprovado para consumo humano. A maioria das marcas usam subprodutos da indústria da carne, como carcaças e partes de animais abatidos, como sangue, ossos e torresmos, que não podem ser vendidas nos talhos e supermercados para consumo humano.

Este tipo de ração gourmet para animais não era novidade para Raul Abraão. Era exactamente o tipo de produto que vendia a marca canadiana de que era distribuidor e que o empresário conhecia bem. "Fui a uma feira internacional e percebi que não havia uma marca com a mesma filosofia que pudesse representar em Portugal. Então decidi criar uma marca própria."

Ao fim de oito anos, a Naturea é líder de mercado em Portugal e exporta para 30 países. Mas não foi fácil. "Tenho um nível de positivismo que pode roçar a inconsciência. Mas quando acreditamos conseguimos ter muita força", diz o empresário.

Um início atribulado
O orçamento inicial era reduzido: 20 mil euros, provenientes da indemnização recebida pela rescisão do contrato canadiano. Para evitar novas dívidas bancárias (entretanto, praticamente pagas), em 2013, Raul Abraão recorreu ao capital de risco e cerca de 20% do capital da empresa é detido por investidores nacionais. "Começámos com grandes dificuldades. Não tínhamos dinheiro para o packaging e vendíamos em sacos de papel pardo das mercearias antigas com rótulos autocolantes. Mas os clientes gostaram."

A identidade da marca foi uma das principais preocupações. "A primeira pessoa que contratei foi um designer", confessa Raul Abraão. "Hoje temos três a trabalhar a tempo inteiro. É a parte mais pesada da empresa." Ao todo, a firma tem 12 funcionários, incluindo um veterinário e um biólogo.

As embalagens da marca procuram transmitir uma imagem artesanal. "O papel pardo marcou a diferença. Mas quando começámos a crescer, os sacos deixaram de responder às necessidades. Por exemplo, a diferença de temperatura no transporte para a Ásia fazia passar gordura e tivemos de mudar para os sacos de alumínio usados pelas outras marcas", conta João Nazaré, responsável pelo design da marca.

Ainda assim, as embalagens mantiveram uma imagem muito diferente das concorrentes. "Nunca usámos fotografias de cães e gatos, como fazem todas as outras marcas." Os pacotes exibem ilustrações dos ingredientes da ração – como a galinha e o salmão – e destacam a percentagem de proteína animal usada num tipo de letra manuscrita. "O cliente compra um produto quanto melhor o compreende. E com as nossas embalagens, as pessoas sabem o que está dentro do saco, pelo que está fora do saco", explica João Nazaré.

Produção em Inglaterra
As receitas das rações da Naturea – tanto as secas como as húmidas – são definidas pelo biólogo e veterinário da empresa. Os alimentos secos contêm entre 41% e 75% de proteína animal, entre frango, pato, cordeiro, salmão e ovos, bem como vegetais, como cenoura, fruta, como amoras, ervas aromáticas e algas. A produção é encomendada a fábricas em Inglaterra e Espanha. "Não temos produção em Portugal porque a indústria nacional não está preparada para processar a quantidade de produtos frescos que usamos", explica Raul Abraão. "Os produtos têm uma percentagem elevada de água e as máquinas têm de trabalhar mais lentamente."

Já os biscoitos para cães, vendidos como sobremesa, são fabricados numa pastelaria em Almada, que fornece bolos e bolachas a vários hipermercados. "São feitos com fécula de batata e adocicados com mel", conta Raul Abraão. "Costumamos dizer que é o biscoito que o dono pode provar se o animal deixar." As receitas são testadas pelos animais de estimação dos funcionários da empresa. "Tentamos escolher os animais mais esquisitos."

A maior parte da produção é exportada para 30 países da Europa e da Ásia através de distribuidores exclusivos. "Não vendemos ao público final. Os distribuidores vendem às lojas físicas e às lojas virtuais." Depois de Portugal, onde as vendas representam 22%, o segundo mercado da Naturea é a Dinamarca, seguido de Hong Kong, na China. "São mercados onde o consumidor está mais informado e onde o respeito pelo meio ambiente é muito valorizado", garante Raul Abraão.

A Naturea usa materiais reciclados e mudou de fornecedor para ter papel de florestas sustentáveis. "Também compramos toneladas de carbono para compensar a nossa pegada ambiental." As escolha das fábricas com as quais trabalha também teve esse cuidado. A inglesa, situada numa zona rural, trata toda a água que utiliza numa ETAR e devolve-a ao rio que passa na zona. A conserveira espanhola, na Galiza, usa energia eólica e faz a captura em regime de pesca sustentável no Atlântico Norte.

Gigantes interessados
O ano passado, a firma facturou 10 milhões de euros. "A empresa ainda está numa fase de crescimento e reinvestimos toda a margem, ou seja não temos lucros significativos." Para o ano, Raul Abraão prevê um crescimento entre 20 e 30%.

Está a correr tão bem, que já chamou a atenção das grandes marcas internacionais. "Mantivemos conversações com uma grande marca que queria comprar a empresa, mas não chegámos a acordo." Contudo, Raul Abraão acredita que a venda será inevitável. É que os gigantes do sector, como a francesa Royal Canin, detida pela multinacional Mars, e a Purina, da Nestlé, não produzem alimentos naturalmente apropriados para cães e gatos, por não compensar o investimento. Por isso, preferem comprar um concorrente mais pequeno. "Mais cedo ou mais tarde vai acontecer."

fonte: Sabado.pt