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14/11/2016

Natália Ponse, da redação

natalia@ciasullieditores.com.br

Contrariando pesquisas e previsões, Donald Trump venceu a corrida eleitoral nos Estados Unidos e será o 45º presidente daquele país. A vitória, divulgada na manhã de quarta-feira (09), poderá impactar o mercado do agronegócio com o Brasil, já que os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial daqui. As exportações com destino aquele país são compostas por produtos manufaturados em sua maioria (como máquinas mecânicas e combustíveis), seguidos pelos produtos básicos e os semimanufaturados. As importações brasileiras também são basicamente compostas em sua totalidade por produtos manufaturados.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC, Brasília/DF), no ano passado foram movimentados US$ 50,5 bilhões, sendo US$ 24,09 bilhões só de exportações brasileiras. As exportações das empresas do agronegócio brasileiro para os Estados Unidos somaram US$ 6,467 bilhões no ano passado, enquanto as importações totalizaram US$ 1,255 bilhão.

Entre as promessas de Trump, está a de fechar mais a economia norte-americana e frear os acordos comerciais, com o intuito de proteger a produção e o emprego nos Estados Unidos. Um deles é o TPP (acordo Transpacífico, que engloba 12 países). Trump se opõe ao acordo comercial, negociado por Barack Obama, que busca acabar com as tarifas comerciais para reduzir o custo de importação e exportação e ajudar a tornar as empresas americanas mais competitivas no exterior. O magnata argumenta que o acordo vai colocar os fabricantes americanos em desvantagem.

Em entrevista ao The Washington Post, Donald Trump questionou as alianças dos EUA com nações ao redor do mundo, afirmando que elas têm custado muito caro e que seus benefícios são incertos. Ele disse, por exemplo, que a Arábia Saudita deveria receber menos ajuda financeira dos Estados Unidos e que os EUA devem reduzir os seus compromissos financeiros com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). "A OTAN está nos custando uma fortuna, e sim, estamos protegendo a Europa com a OTAN, mas estamos gastando um monte de dinheiro", declara.

 

Sob a ótica do setor brasileiro, na opinião do presidente-executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA, São Paulo/SP), Francisco Turra, não haverá mudanças significativas. Para ele, os espaços conquistados no mercado externo continuarão sólidos. “A aproximação da Rússia poderá reatar negociações com os EUA, mas manteremos sempre nosso espaço para carne de aves e suínos pela excelência da sanidade dos nossos produtos”, ressalta. Ele ainda destaca que cenários mais amplos poderão continuar a serem traçados no mercado internacional, como por exemplo, o México. Na avicultura, segundo Turra, a relação é de respeito. “Eles são os maiores produtores e nós os maiores exportadores do mundo. Nossos mercados não estão abertos um para o outro, mas convivemos numa harmonia positiva e irrepreensível no mercado mundial. Somos, nós e eles, produtores e exportadores de alimentos e a complementaridade poderá ser nossa ferramenta mais importante a trabalhar", pontua o presidente-executivo da ABPA. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec, São Paulo/SP) e a Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS, Brasília/DF) optaram por não se posicionar sobre a eleição de Trump.

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Para Turra, não haverá mudanças significativas (Foto: reprodução)

O colunista da Folha de São Paulo (São Paulo/SP), Mauro Zafalon, acredita que a promessa de protecionismo para os EUA e as consequentes freadas de acordo podem dar vantagem ao Brasil. “O País terá mais tempo para fazer uma lição de casa que nunca fez: a de buscar acordos comerciais pelo mundo”, indica Zafalon. O especialista ainda comenta a posição de Trump em eliminar o TPP. Ele diz que, com ele, os Estados Unidos teriam acesso a uma boa fatia do mercado mundial agrícola. Sem reduções de tarifas, os países componentes do acordo já representam US$ 57 bilhões para as exportações do agronegócio norte-americano. Ou seja, 43% de todas as vendas externas do país nesse setor. “Trump é apenas mais um passageiro da Casa Branca. Ele poderá retardar os acordos comerciais, mas, se não fizer isso agora, outros farão. O Brasil ganha tempo nesse período de atraso”, conclui o colunista.

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"Trump é apenas mais um passageiro da Casa Branca", diz Zafalon (Foto: reprodução)

“Exercitando a futurologia e considerando os discursos protecionistas/nacionalistas que pautaram a campanha do republicano eleito, penso que a revisão de acordos comerciais dos EUA com tantos parceiros pode favorecer o Brasil”. Sobre seu posicionamento, o CEO do Sindirações (São Paulo/SP), Ariovaldo Zani, explica que ambos os países concorrem no fornecimento de produtos agropecuários em âmbito global. Ele cita como exemplo a revisão do ainda não finalizado TPP, que pode ampliar oportunidades para milho, soja e carnes brasileiras alcançarem pelo menos uma dezena de países, dentre eles o Japão, Malásia, Vietnã e Brunei. “Além disso, o iminente aumento da taxa de juros pelo Federal Reserve vai provocar nova desvalorização do Real, cuja consequência é produto brasileiro mais competitivo no cenário internacional”, conclui o executivo.

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Para Zani, revisão de acordos comerciais dos EUA com tantos parceiros pode favorecer o Brasil (Foto: reprodução)

José Luiz Tejon Megido, colunista da Revista feed&food, espera uma posição mais radical nas relações internacionais e um país “acima de tudo e de todos”, no que se refere à eleição de Donald Trump. “Com ele, na minha opinião, teremos uma agressividade mais bélica no mundo dos negócios, regras muito mais protecionistas ao agronegócio americano e planos ousados de conquista de mercado. Para Trump, aliados dos Estados Unidos serão apenas os que abrirem suas fronteiras para o progresso dos interesses americanos”, explica. Ele indica que o Brasil é adversário em muitas áreas do agro e que isso significa uma nova voz por parte daquele país: mais imperativa e autoritária, eliminando a dúvida do povo americano sobre quem manda e quem deve continuar mandando no mundo. “Porém, o mundo globalizou, e se por um lado com Trump teríamos um competidor muito mais agressivo e vociferante, por outro, os nossos grandes clientes internacionais hoje teriam muito menos confiança ao negociar com os Estados Unidos, pois se embargos comerciais com produtos agrícolas já são costumeiros  nas guerras frias, com o general Trump a frente da Casa Branca haverá chances maiores de serem utilizados”, diz Tejon, ressaltando que a curto prazo o Brasil precisa se preocupar com maior urgência sobre o destino político da China, Ásia, Oriente Médio e países africanos, além de colocar em prática uma política urgente de segurança científica e tecnológica.

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Tejon: "Para Trump, aliados dos Estados Unidos serão apenas os que abrirem suas fronteiras para o progresso dos interesses americanos" (Foto: reprodução)

Do lado das expectativas negativas, surge o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA, Brasília/DF). Blairo Maggi (foto lateral) reconhece que efeitos positivos podem ficar às margens, não com relação ao acesso de produtos, mas à participação nos mercados onde os dois países são competidores. “Eles são muitos fortes em áreas que somos competidores mundo afora. E se esse protecionismo vier em forma de novos subsídios para a agricultura norte-americana, aí nós teremos problemas”, reflete o ministro, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo (São Paulo/SP).

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"Como nunca atuou na política e tem uma postura muito diferente da tradicional classe política americana, ainda é uma caixa preta", diz Gubert (Foto: reprodução)

O diretor de Inovação e Negócios da Agriness, Everton Gubert, acredita que a previsão sobre o futuro com Trump na liderança dos EUA é difícil, já que ele seria um “personagem”. “Como nunca atuou na política e tem uma postura muito diferente da tradicional classe política americana, ainda é uma caixa preta. Precisamos esperar as primeiras ações para ver se o que ele defendeu em sua campanha como, por exemplo, aumentar o protecionismo dos EUA, de fato será levado adiante”, diz. Mesmo assim, o especialista complementa que acha difícil a gestão afetar o Brasil pois o agronegócio nacional possui relações comerciais bastante diversificadas com dezenas de países. Para ele, o foco da preocupação deve ser outro: os problemas domésticos. “Nesse sentido, a solução só depende de nós, não do Trump. Como sociedade, precisamos encarar de vez a reforma da previdência, a reforma trabalhista, tributária e política, entre outras, se quisermos sonhar em viver em um país atualizado com o século 21 nos próximos anos. Se o nosso dever de casa não for resolvido, Abraham Lincoln pode até ressuscitar e voltar à presidência dos EUA que não iremos aproveitar as oportunidades por ele geradas", conclui Gubert.

No geral, entende-se a gestão de Trump como um mistério. Após sua eleição, em discurso, alegou: “Vamos dobrar nosso crescimento e ter a economia mais forte em qualquer lugar do mundo. Ao mesmo tempo, vamos nos relacionar com todas as outras nações dispostas a nos dar bem”. Benéfica ou não, as consequências da eleição de um gestor como ele vão chegar até o Brasil, grande player no agronegócio mundial. Para isso, resta seguir o conselho de nossos especialistas: fazer a lição de casa e se preparar para as duas (ou mais) possibilidades – e esperar que a promessa “Make America Great Again” não afete negativamente o negócio verde-amarelo.