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14/02/2017

Natália Ponse, da redação

natalia@ciasullieditores.com.br

O Brasil concentra aproximadamente 13% das reservas de águas doces do mundo, contando também com mais de 8,5 mil km de costas. A piscicultura ainda movimentou, em 2016, R$ 4,3 bilhões, com geração de um milhão de empregos diretos e indiretos. Em 2015, a produção alcançou 63 mil toneladas. Os dados foram coletados pela Peixe BR (São Paulo/SP) durante 1º levantamento oficial da produção de peixes do Brasil.

Este cenário, junto ao trabalho árduo e diário dos produtores brasileiros, transforma o País em um potencial potencial player do mercado global, fornecendo alimento tanto para consumo interno quanto externo. De acordo com o Rabobank (São Paulo/SP), a piscicultura brasileira é uma “superpotência adormecida”. O crescimento na produção de tilápia, por exemplo, deve crescer 490 mil toneladas em apenas quatro anos; outro exemplo é o tambaqui, que também tem sua produção crescente devendo atingir 330 mil toneladas por ano, posicionando-se então como segunda opção em aquacultura. 

O potencial é bem distribuído no País. Apesar da região norte ser a maior produtora, é o Paraná quem lidera o volume piscicultor no Brasil. Com 93.600 toneladas de peixes cultivados, o Estado contou com projetos aquícolas independentes e cooperativas para superar as adversidades do ano. Em segundo lugar está Rondônia, com 74.750 toneladas (crescimento de 15% sobre 2015) com destaque para os peixes redondos, característica da atividade no Estado. Na terceira colocação encontra-se São Paulo com 65.400 toneladas produzidas e registrando crescimento de 9% ao ano, média tradicional para o Estado e com tendência de maior evolução por causa da assinatura de um decreto que regulamenta o licenciamento ambiental.

 

"Precisamos trabalhar para diminuir nossos custos internos e, assim, aumentar a competitividade com o peixe importado"

 

Alguns números, no entanto, não são positivos para o setor. Com crescimento de apenas 0,39% na produção em 2016, a atividade registrou ao menos 10% nos dez anos anteriores. Isso se dá, segundo o Rabobank, pela falta de legislação que suporte avanços, infraestrutura deficiente e falta de investimentos. Para a Peixe BR, o desempenho está ligado à situação econômica brasileira, que passou por redução de investimentos, queda no consumo de proteínas animais e problemas climáticos no Nordeste.

Uma das consequências deste último fator foi a queda na produção do Ceará.  Antes figurando entre os maiores produtores de tilápia do Brasil, o Estado caiu para a 18ª posição no ranking em razão da intensa seca que atinge a região Nordeste há pelo menos cinco anos, afetando a matriz de reprodução em razão da baixa nos reservatórios.

Para driblar essa situação, a Secretaria de Agricultura, Pesca e Aquicultura do Ceará enxerga um momento para reordenar e discutir novas matrizes para a atividade, com a produção em viveiros escavados ou tanques suspensos, ambos com pouco uso e reuso de água. “Temos um Estado pesqueiro e aquícola, sempre fomos o maior produtor de lagosta, grande produtor de pargo e hoje o maior produtor de camarão, já sendo também o maior da região na produção de tilápia. Há aqui uma concepção da sociedade e do governo da importância da atividade pesqueira, então temos o desafio de fazer um planejamento para superar essas dificuldades”, esclarece o secretário Odilon Guimarães.

A necessidade de fortalecimento da atividade também tem raiz nos negócios externos. Atualmente, a alta importação de peixes de outras partes do mundo é um dos fatores que limitam o crescimento produtivo dentro do território. De acordo com os dados da Peixe BR, em 2003 o Brasil importou 145 mil toneladas, montante que disparou 165% em dez anos (2013), atingindo 383,4 mil toneladas. De um lado há um País com piscicultura em estruturação e consumo interno relativamente baixo (cerca de 10 kh/hab/ano); do outro lado estão países ávidos em expandir suas exportações e com oferta abundante para atender os mais diversos mercados-alvo. “Além de exigir regras sanitárias e boas práticas de produção dos fornecedores internacionais, precisamos trabalhar para diminuir nossos custos internos e, assim, aumentar a competitividade com o peixe importado”, conta o presidente da Associação dos Aquicultores de Mato Grosso (Aquamat), Jules ignácio. O Estado é o quarto maior produtor brasileiro, com 59.900 toneladas em 2016.

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Atividade reforça estratégias de produção sustentável em todo o País (Foto: reprodução)
 

Soluções em curso. Para fazer com que a aquacultura atinja os patamares alcançados pela bovinocultura, avicultura e suinocultura é preciso, na opinião do secretário de Aquicultura e Pesca do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA, Brasília/DF), Davyson Franklin de Souza, atentar-se a alguns fatores: tempo (os setores mencionados levaram anos para atingir o patamar atual de representação, alega o secretário), planejamento estratégico, capacitação e ações de representação política. “Há de desenvolver aspectos da produção primária, buscando maiores índices de produtividade sustentáveis junto aos produtores, melhorando os processos industriais para maior aproveitamento da matéria prima, fornecer assistência técnica qualificada e em quantidade suficiente”, elenca Souza que cita também o aprimoramento de marcos legais, desenvolvimento de estratégias de mercado e marketing buscando formação de consumidores do futuro e fortalecimento das entidades representativas do setor. “Recomendamos também atenção e ações de representação política do setor, criação de fundos para o desenvolvimento da atividade e capacitação continuada em todos os elos da cadeia produtiva”, finaliza.

Uma das respostas do governo brasileiro para as demandas da atividade brasileira é a Embrapa Pesca e Aquicultura (Palmas/TO). Parte integrante da Embrapa (Brasília/DF), instituição renomada em pesquisa em todo o setor agro, a empresa promove pesquisas focadas na demanda da cadeia e é o maior centro de pesquisas do segmento no Brasil. São 240 funcionários em uma área total de 10 mil m² com a missão de gerar conhecimento e tecnologia. “Nossa prioridade é desenvolver pesquisas mais objetivas, com informações técnicas e econômicas, custos de produção de diferentes espécies e melhoria da estrutura da cadeia como um todo”, afirma o chefe-geral da Embrapa, Carlos Magno Campos da Rocha.

A profissionalização da atividade é outra estratégia para alavancar resultados. Para isso, o Sebrae (Brasília/DF) foca em transferência de tecnologia, mercado e sustentabilidade. “É importante entender que o planejamento é uma peça essencial para o produtor rural definir aonde ele quer chegar e, a partir disso, fazer a mensuração de seus resultados e gerenciar suas despesas”, destaca a analista Técnica da Unidade de Atendimento Setorial Agronegócios do Sebrae, Newman Costa.

Outra força nesse sentido é o Serviço nacional de Aprendizado Rural (Senar, Brasília/DF) que aumentou a oferta de turmas e temas para a capacitação gratuita do piscicultor brasileiro. De acordo com o presidente da Comissão Nacional de Aquicultura da Confederação Nacional da Pecuária (CNA, Brasília/DF), Eduardo Ono (foto lateral), o consumo de pescado no Brasil vem aumentando, o que demonstra que o mercado brasileiro é sedento por peixe, mas por peixe de qualidade. “Isso vem se refletindo em um menor consumo do pescado importado de qualidade inferior, abrindo caminho para o pescado nacional com qualidade e oferta contínua, o que só é conseguido por meio da aquicultura”, explana.

Hoje, a produção sustentável é parte integrante de todos os projetos de piscicultura do País. De acordo com o diretor Secretário da Peixe BR, Valdemir Paulino, a produção sustentável é uma característica inerente às proteínas animais no Brasil. “A pecuária, a avicultura, a suinocultura e a piscicultura respeitam o meio ambiente, mas não abrem mão da produtividade e o uso de modernas tecnologias”, fala e completa: “Nesse sentido entram em cena os milhares de pequenos e médios produtores, muito integrados às cooperativas ou às associações regionais que dão sua contribuição para o crescimento da atividade com muita reponsabilidade”, conclui.

A Peixe BR entende que toda a situação econômica impediu, com mais ou menos intensidade, o melhor desempenho da atividade como um todo. Há Estados onde a produção continuou avançando e o crescimento foi sólido – casos do Paraná, Rondônia e São Paulo. Em outros, o desempenho ficou estável e em alguns foi afetado pelas adversidades econômicas. Mas, para a associação, nada tira da piscicultura brasileira o potencial de evolução, considerando a disponibilidade de água, condições climáticas, capacidade empreendedora dos empresários brasileiros e a diversidade de espécies.