| |
ARTIGOS TÉCNICOS |
MANEJO NUTRICIONAL E ALIMENTAR PARA PEIXES EM
TANQUE-REDE:
(NOÇÕES GERAIS)
|
| 1- Luciane
Messias Sperandio |
Na
piscicultura intensiva, os gastos com a alimentação
dos peixes correspondem a 50 a 70% do custo de
produção, dependendo do sistema
de cultivo empregado, da escala de produção,
da produtividade alcançada, dos preços
dos outros insumos de produção,
dentre outros fatores. Este custo pode ser minimizado
com a adoção de um manejo alimentar
adequado e uso de rações com qualidade
compatível com as diferentes fases de desenvolvimento
e hábito alimentar do peixe, bem como o
sistema de cultivo utilizado. Essa prática
pode, entre outras coisas:
|
-
maximizar o crescimento dos peixes e o número
de safras anuais;
-
melhorar a eficiência alimentar, reduzindo
os custos de produção;
-
melhorar a tolerância dos peixes ao
manuseio, transporte vivo, doenças
e parasitoses;
-
minimizar o impacto poluente dos efluentes
da piscicultura intensiva, aumentando a produtividade
dos sistemas de produção;
-
incrementar o desempenho reprodutivo e qualidade
das pós-larvas e alevinos e dessa forma,
otimizar a produção e melhorar
as receitas da piscicultura.
|
| Para
alcançarmos esses objetivos, é importante
estarmos atentos a alguns fatores como o hábito
alimentar dos peixes que serão cultivados,
requerimento nutricional, qualidade das rações
e manejo alimentar de acordo com o sistema de
criação a ser usado.
Hábito
Alimentar
De forma geral os peixes podem
ser considerados onívoros me relação
às suas preferências alimentares,
tanto em condições naturais como
em cultivo. No entanto, na maioria das vezes eles
são mais eficientes no aproveitamento de
um determinado tipo de alimento e por isso são
classificados em diferentes grupos:
|
| 1 - Herbívoros e frugívoros:
fazem parte deste grupo, peixes que têm preferência
por alimentos de origem vegetal, ricos em fibra
e de baixo valor energético. Os herbívoros
se alimentam de plantas e algas, os frugívoros
de frutas e sementes. Ex.: carpa capim, tilápia
rendali e piapara (herbívoros), pacu e tambaqui
(frugívoros).
2 - Planctófagos: fazem parte deste grupo
peixes que têm preferência por plâncton
(comunidade aquática constituída
de algas unicelulares - fitoplâncton e por
organismos animais - zooplâncton). Ex.:
tilápia do Nilo, carpa prateada e carpa
cabeça grande.
3 - Iliófagos / Detritivos: fazem parte
deste grupo peixes que se alimentam de organismos
bentônicos (organismos que vivem no fundo
do tanque). Ex.: carpa comum, piauçu, cascudos
e curimbatá.
4 - Onívoros: são peixes que ingerem
todo tipo de alimento. Ex.: carpa comum, pacu,
tambacu, matrinxã.
5 - Carnívoros: são peixes que
se alimentam de animais de maior porte, tais como,
insetos, crustáceos, peixes menores, anfíbios
e cobras. Ex.: pintado, tucunarés, dourado,
traíras, surubins, black-bass, truta arco-íris,
pirarara, pirarucu. |
| |
| Tabela 1 - Características
alimentares de algumas das principais espécies
cultivadas. |
| |
| Espécies |
Hábito
alimentar |
Características
alimentares no desenvolvimento |
| Carpa
capim |
Herbívora
/ onívora |
PL:
alim.nat; Juv/Ad: macrófitas, alg.filam.,
ração |
| Carpa
comum |
Onívora |
PL:
alim.nat., ração; Juv/Ad: ração |
| Carpa
cabeça grande |
Planctófaga
/ onívora |
PL:
alim.nat; Juv/Ad: zoop., ração |
| Carpa
prateada |
Planctófaga
/ onívora |
PL:
alim.nat; Juv/Ad: fitop, zoop, ração |
| Tilápia |
Onívora |
PL/Juv/Ad:
ração, fitop, zoop, outros alim.nat. |
| Truta
arco-íris |
Carnívora
/ onívora |
Aceita
ração em todas as fases de desenvolvimento |
| Curimbatá |
Detritívora
/ onívora |
PL:
alim.nat; Juv/Ad: ração |
| Dourado |
Carnívora |
PL:
alim.nat-canib; Juv/Ad: px, crust, ins;
cond.ração |
| Matrinxã |
Onívora |
PL:
alim.nat-canib; Juv/Ad: ração |
| Pacu |
Onívora |
PL:
alim.nat; Juv/Ad: ração |
| Surubins |
Carnívora |
PL:
alim.nat-canib; Juv/Ad: px, crust, ins;
cond.ração |
| Piraputanga |
Onívora |
PL:
alim.nat-canib; Juv/Ad: ração |
| Tambaqui |
Frugívora
/ onívora |
PL:
alim.nat; Juv/Ad: ração, frutos, sementes |
| Tambacu |
Onívora |
PL:
alim.nat; Juv/Ad: ração |
| Tucunarés |
Onívora |
PL:
alim.nat-canib; Juv/Ad: px, crust, ins;
cond.ração |
|
| |
PL:
pós-larvas e micro-alevinos; Juv/Ad: juvenis
e adultos; alim.nat: alimento natural (plâncton,
larvas de insetos; larvas e ovos de moluscos,
etc), fitop-zoop: fito e zooplâncton; canib:
canibalismo pode acontecer; px, crust, ins: peixes
menores, crustáceos e insetos diversos;
macrófitas: plantas aquáticas tenras;
alg.filam: algas filamentosas; ração:
aceitam rações e outros tipos de
alimentos preparados; cond.ração:
aceitam ração após um período
de condicionamento alimentar
|
| Exigências
Nutricionais |
As
exigências nutricionais dos peixes variam de acordo
com a espécie, fase de desenvolvimento e sistema
de criação.
Em tanques-rede a disponibilidade
de alimento natural é limitada e os peixes estão
submetidos a uma maior pressão de produção e estresse.
Portanto, é recomendado que as rações sejam mais
concentradas em proteínas (32 a 40%), energia
digestível (2.900 a 3.200 kcal ED/kg) e recebam
um enriquecimento mineral e vitamínico ainda maior.
Neste sistema portanto, a ração deve ser completa,
ou seja, deve atender as demandas nutricionais
dos peixes em suas diferentes fases de desenvolvimento
(alevinagem, crescimento, engorda) em função do
sistema de produção e nível de manejo empregado.
A
proteína corresponde ao nutriente de máxima importância
na dieta e sua exigência é definida em função
da quantidade mínima de aminoácidos para obtenção
do máximo crescimento (NRC, 1983).
Os
peixes exigem maiores porcentagens de proteína
na dieta que os outros animais. A concentração
de proteína em rações de peixe varia entre 24
e 50%, enquanto que em rações para frango há uma
variação entre 18 a 23% e em rações de suínos
entre 14 e 18%. Esta maior exigência de proteína
na dieta é explicada pelo fato dos peixes demandarem
menor consumo de energia.
|
Tabela
2 - Exigências de proteína de algumas espécies
de peixe. |
| |
| Espécie
de peixe |
Exigência
PB% |
| Tilápia
do Nilo |
28-32 |
| Truta
arco-íris |
40-45 |
| Carpa
comum |
28-32 |
| Pacu |
24-28 |
| Tambaqui |
17-30 |
| Matrinxã |
28-32 |
|
| |
Os
peixes não necessitam de calorias para
manter sua temperatura corporal já que
são pecilotérmicos, mas precisam
de energia para realizar atividade muscular (nadar),
formar novos tecidos, manter equilíbrio
osmótico (reter ou excretar água,
movimentar moléculas contra um gradiente
de concentração) e outras reações
necessárias para manutenção
da vida e produção. O fato de não
ter que despender calorias para controlar a temperatura
do próprio corpo e gastar pouca energia
para se locomover na água faz com que os
peixes tenham uma necessidade de ingestão
calórica muito menor que os animais de
sangue quente (ver tabela 3). É comum expressarmos
energia de rações de peixes como
Energia Digestível na unidade de kcal/kg.
|
| |
| Classes de animais |
Kcal/kg |
| Aves |
3.100-3.250 |
| Suínos |
3.200-3.300 |
| Peixes |
2.600-2.900 |
|
| |
Os
peixes regulam o consumo de ração
pela ingestão energética. Uma ração
deficiente em energia provocará um consumo
de alimento maior e em casos graves, a proteína
será convertida em energia para manutenção
antes de ser utilizada para crescimento. Por outro
lado, uma ração com excesso de energia
limita a ingestão de alimento e consequentemente
limita a ingestão de proteína (aminoácidos),
vitaminas e minerais. Excesso de energia e/ou
proteína pode levar a grande acúmulo
de gordura corporal, o que é indesejável.
A relação energia:proteína
ideal em rações de peixe (6 a 8
kcal/g proteína) é menor que em
rações de outros monogástricos
(14 a 20 kcal/g proteína para aves e suínos).
No peixe, assim como em outros monogástricos
esta relação aumenta proporcionalmente
ao seu tamanho.
Quanto às vitaminas,
os peixes devem receber através da dieta
uma suplementação de vitaminas hidro
e lipossolúveis para atender suas necessidades
diárias. As vitaminas adicionadas à
ração são: A, D, E, K, C,
Colina, Niacina, Tiamina, Riboflavina, Pirodoxina,
Cianocobalina, Ác. Pantotênico, Ác.
Fólico, Biotina e Inositol.
A vitamina C é particularmente
importante na nutrição de peixes
criados em tanque-rede, pois participa como cofator
de várias reações, é
precursora do colágeno e combate o estresse
devido ao confinamento dos peixes nesse sistema.
Já os minerais têm
importante papel como osmorreguladores e na manutenção
da atividade metabólica dos peixes. Os
peixes podem absorver parte de sua exigência
nutricional da própria água onde
vivem, isto faz com que seja difícil sermos
precisos na determinação de suas
necessidades minerais. Os minerais exigidos são:
Cálcio, Fósforo, Magnésio,
Sódio, Potássio, Ferro, Cobre, Cobalto,
Manganês, Iodo, Zinco e Selênio.
Qualidade
das rações.
A qualidade das rações
vem melhorando a cada ano, mas os problema de
origem nutricional comuns no passado ainda são
freqüentes em muitas pisciculturas. Com a
recente intensificação do cultivo
de peixes no Brasil, utilizando tanques-rede,
houve um aumento na incidência de desordens
nutricionais devido ao inadequado enriquecimento
vitamínico e mineral das rações.
Este sistema intensivo demanda o uso de rações
nutricionalmente completas, com enriquecimentos
vitamínicos e minerais. A maioria das rações
de peixes disponíveis no Brasil são
adequadas apenas para cultivo de alguns peixes
em tanques de terra com disponibilidade de alimento
natural e biomassa raramente acima de 6.000 kg/ha,
o uso de rações inadequadas pode
trazer prejuízos à criação
em tanque-rede devido às deficiências
nutricionais.
Deficiências nutricionais
prejudicam o crescimento, a eficiência alimentar
e o sucesso reprodutivo dos peixes e além
disso, podem depreciar a aparência de alevinos
e peixes adultos. O inadequado manejo nutricional
prejudica a saúde dos peixes, aumenta a
incidência de doenças e a mortalidade,
levando a um excessivo uso de medicamentos, onerando
o custo de produção sem proporcionar
efetiva correção do problema.
Manejo
alimentar.
Algumas considerações
podem auxiliar o produtor para a maximização
do fornecimento de ração para os
peixes em tanque-rede: |
-
utilizar rações
de boa procedência, indicadas para o
sistema intensivo em tanque-rede, de acordo
com a fase de desenvolvimento dos peixes;
para se evitar perdas durante a distribuição,
e para se ter controle sobre a quantidade
de ração consumida, é
mais indicado a utilização de
rações extrusadas a tampa-comedouro
para tanques-rede. Rações extrusadas
de alta qualidade são mais digestíveis,
portanto menos poluentes se comparadas às
rações peletizadas. Isso possibilita
um aumento na produtividade com um menor custo
ambiental. Embora um pouco mais caros, os
péletes extrusados ganharam a preferência
de muitos piscicultores por simplificarem
o manejo da alimentação e permitirem
a obtenção de maior produtividade
e lucro;
-
a utilização
dos comedouros também auxilia na determinação
da qualidade total de ração
fornecida, podendo ser utilizada uma correção
diária através da observação
da ocorrência ou não de sobras
de ração dentro dos tanques-rede;
-
a quantidade de ração
a ser oferecida por dia também é
de fundamental importância, pois o excesso
pode ser tão prejudicial quanto à
falta. A ingestão pode ser calculada
com base na porcentagem de biomassa dos tanques-rede,
que pode variar de 2 a 10%, conforme o tamanho
dos peixes, temperatura, etc;
- no que se refere à frequência
de alimentação, é importante
ressaltar que para um melhor aproveitamento,
a quantidade de ração a ser oferecida
deve ser distribuída em no mínimo
duas alimentações diárias
, podendo chegar até 6 vezes ao dia;
|
O produtor também deve estar atento ao
manejo alimentar, ajustando o arraçoamento
de acordo com a resposta dos peixes e com suas
alterações na qualidade da água.
Além disso, deve-se preocupar com a estocagem
adequada das rações na fazenda e
com o registro dos dados de produção
e desempenho dos peixes. Desse modo, ele poderá
fazer o controle sobre os custos com alimentação
e maximizar sua produção, tornando
a criação de peixes em tanque-rede
viável e altamente lucrativa.
|
1
Zootecnista, Especialização em Piscicultura
Goiânia-GO
lusperandio2001@yahoo.com.br |
| |
|
| |
|
| |
|